A Relevância dos Irrelevantes

A Relevância dos Irrelevantes

Por Leandro Tinoco

Minha última palavra

O pensamento apaixonado

Possessão mais preciosa

O meu Filho mui amado

Eu entrego por inteiro

A este mundo tão sedento

Por amor que é verdadeiro,

Que é fiel, é muito, é tanto

Jorge Camargo

 

Existem três níveis de conversão pelos quais temos que passar. A primeira é a conversão a Cristo como senhor de nossas vidas, quando experimentamos um novo começo e tudo passa a ser reinventado em nossa vida, somos nova criatura.

Depois somos convertidos à santidade. Já somos filhos de Deus, mas algo começa a acontecer profundamente em nós que não conseguimos nos satisfazer com pouca coisa de Deus. Buscamos incansavelmente sermos iguais a Cristo para vivenciarmos Sua presença a cada momento.

E o terceiro nível é quando nos convertemos para a causa de Cristo. A este nível de conversão poucos chegam, pois nem sempre é o que se espera de uma vida cristã abundante. Descobrimos que tudo o que somos e temos é para a implantação do Reino de Deus e descobrimos isso não em teoria, mas na prática, pois passamos a não dormir enquanto não orarmos pela obra que está sendo realizada no mundo. Passamos a ter muita curiosidade sobre tudo que está acontecendo ao redor do mundo que envolva a Igreja e a missão.

Choramos quando sabemos de notícias ruins sobre nossos missionários, mas passamos semanas inteiras com uma sensação de alegria quando ouvimos as vitórias no campo missionário. Tudo isso nos faz desejar cada vez mais que Deus nos use. Trabalhar no Reino deixa de parecer uma obrigação para tornar-se uma honra e, quando Deus nos dá esta honra, quase não nos contemos de satisfação.

Creio que era neste último nível que Estevão estava e, por isso, muitas vezes é difícil para nós aceitarmos com tranquilidade o sofrimento pelo qual ele passou como algo bom. Não me refiro ao sofrimento em si, mas à honra de sofrer por Cristo.

Neste texto vemos Deus e Cristo se mostrando de uma forma tremenda e, com certeza, Lucas (Atos 7:54-60), inspirado pelo Espírito Santo, deixou esta narrativa para nos fazer ver melhor algumas verdades. Ou seja, ao lê-la, percebemos que o que fazemos no Reino está sendo assistido e sustentado por Cristo.

O mundo tem nos chamado para ser relevantes, para fazer diferença e isso, de modo geral, significa que temos que adotar os padrões de sucesso estabelecidos, uma boa carreira, um bom salário, uma boa formação. Há quem diga que, para nos tornarmos significativos, temos que plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Toda teologia da prosperidade, explicitamente ou não, tem se baseado na teoria de que fazer diferença no mundo atende os padrões preestabelecidos em nossa sociedade ou mesmo em nossa tribo.

No entanto, Deus não nos chamou para sermos relevantes, mas fiéis. Estevão, se fosse avaliado pelos padrões modernos, não só não teria qualquer relevância como seria exemplo de fracasso. Ele, apesar de ser um homem muito capaz, pois conseguiu falar para um grupo de pessoas ilustres naquela sociedade, teria jogado fora a oportunidade de fazer amigos e realizar negócios, ter sucesso, ao expor a verdade sobre aqueles homens que eram rebeldes, obstinados.

Além disso, ele fez isso de tal forma que sua vida lhe foi tirada. Não seria melhor ser um pouco mais recatado na maneira de falar para não sofrer tanta retaliação e conseguir uma nova oportunidade depois? Esse talvez seria o discurso daqueles que estão tentando conseguir o sucesso, falar aos pecadores sem lhes expor a podridão.

Temos evidentemente muitos sonhos de sucesso, mas seria bastante conveniente nos prostramos diante daquele que é o Senhor para recebermos dEle as instruções necessárias sobre que coisas temos que fazer e como devemos ser para lhe agradar.

É nesse sentido que muitas coisas que, por si sós, não representam qualquer problema não devem ser praticadas, pois podem não traduzir da melhor forma aquilo que Cristo gostaria de ver em nossa vida.

Podemos até ter relevância no mundo, mas não deve ser segundo os moldes do mundo, deve ser a relevância dos irrelevantes, aquela que vem do alto e que as pessoas possivelmente só perceberão na eternidade.

O rei de Rohan, no livro do Senhor dos Anéis, depois de passar muito tempo dominado por um bruxo mau, é libertado por Gandalf e luta duas grandes batalhas. Na última, ele é gravemente ferido e está à beira da morte quando sua sobrinha se aproxima e o abraça chorando, mas ele lhe diz que agora não precisará se envergonhar ao se encontrar com os seus ancestrais, pois todos foram homens que enfrentaram grandes batalhas e, vencendo ou não, saíram vitoriosos porque morreram com honra.

Estevão desempenhou um papel grande o suficiente para lhe tirar a vida. Ele tombou com grande honra na batalha. Não há outro lugar melhor para um soldado morrer do que durante uma grande batalha por uma grande causa. No caso de Estevão e do nosso, a maior batalha de todos os tempos é a batalha pelas almas das pessoas e pela glória de Deus.

O texto diz que ele adormeceu, uma expressão inesperadamente bela para uma morte tão brutal. A verdade é que temos uma grande fonte de prazer e satisfação à nossa disposição, mas, normalmente, buscamos isso em outros lugares. Não somente a nossa vida pode ser bastante prazerosa na causa de Cristo, como também a nossa morte, mesmo sendo uma morte brutal, pois temos à nossa disposição Aquele que é a fonte da vida.

Imagine você sendo alvo de incompreensão ou até mesmo da perseguição por causa de Cristo e, bem no meio da crise, sentir o Seu olhar e dEle receber a capacitação do Espírito! Se isso já aconteceu com você, tenho certeza de que está almejando o dia em que acontecerá novamente. Se ainda não aconteceu, talvez você esteja ansioso por isso. Entre na batalha.

Há outra pessoa de nossa história mais recente que nos inspira a vivermos e morrermos pela causa do Reino. Em 1792, Wilian Carey, um sapateiro, desafiou a Igreja a se envolver em missões com o objetivo de levar o evangelho a todos os povos do mundo. Na época, a Igreja acreditava que a Grande Comissão e Atos 1:8 eram somente para os apóstolos. Hoje, depois de mais de 200 anos, vimos que os efeitos da vida daquele homem na Igreja foram tremendos.

O sonho de Carey ainda não foi alcançado, mas, desde então, crescemos vertiginosamente e a centralidade da obra missionária foi esclarecida. Ele ficou conhecido como o pai das missões modernas pela importância de sua influência na forma como as missões passaram a ser vistas.

Para que novamente tenhamos um grande fervor missionário, não precisamos de nenhum empreendimento grandioso por parte de homens, por mais notáveis que sejam. O fervor missionário surgirá onde se encontrarem “sapateiros”, pessoas que, não apesar de sua pouca influência no mundo, mas precisamente por isso (em nossa fraqueza o poder de Deus é evidenciado) se disponham nas mãos dEle. E esta disposição se dá no tempo em que ainda têm vigor e saúde, no momento em que ainda os olhos enxergam bem e as mãos não se cansam com facilidade, quando o entusiasmo da juventude corre firme em suas veias, enquanto restam forças para realizarem grandes feitos por nosso Deus e Seu Reino, enquanto esta oportunidade ainda não está simplesmente na memória perdida no tempo e usam tudo o que têm para que a Glória do Pai seja reconhecida em todos os povos.

Esta obra não é somente grandiosa no sentido dos efeitos futuros, mas também no sentido de que Ele está nos assistindo agora e, muitas vezes, Ele nos deixa ver os resultados da missão. É uma grande honra ter os olhos dEle voltados para nós. É uma grande honra poder dispor de tudo que somos e temos para Sua causa.

É necessário voltar para as obviedades da fé e as duas principais são: temos que lutar para que a glória de Deus seja reconhecida em todos os lugares, mesmo nos mais inesperados, e temos que sentir compaixão por aqueles que ainda não têm a esperança da vida eterna em suas vidas. Não existe maior batalha, nem maior honra, nem maior prazer!

Só duas vezes no Novo Testamento Cristo é citado como estando em pé, uma é neste texto (Atos 7:55) e outra em Apocalipse (14:1). As narrativas falam dEle assentado à direita de Deus, como quando Ele falou ao Sinédrio por ocasião de Sua morte (Mc.14:61-62). Existem outros textos que falam dEle andando pela Igreja (Ap.2:1) e cavalgando para a batalha (Ap.19:11-16).

Estevão explode em graça ao perceber a graça sendo derramada para ele mesmo, pois Cristo à direita de Deus não é uma figura inativa, mas de autoridade e governa todas as coisas. No Salmo 110, Deus põe Cristo como Rei e Sacerdote para colocar os inimigos sob os seus pés e para servir a Deus e transmitir Sua graça para sempre. Cristo governa sobre todas as esferas da realidade, quer naturais, quer sobrenaturais (Mt. 28:19-20; 1 Ped. 3:22).

Na grande comissão, ficamos sabendo que Ele estaria conosco quando fôssemos a todos os locais, até mesmo os mais distantes e complicados. Porém, foi estabelecida a condição de que iríamos para fazer discípulos e implantar Seu reino. Hoje o Brasil tem cerca de 5 mil missionários transculturais formais e milhares de missionários em nossas próprias fronteiras. Não existe maior empreendimento sendo feito hoje no mundo e sempre mais recursos estão vindo da parte de Deus, mesmo quando a Igreja falha em disponibilizar os recursos necessários. Temos a chance de completar a Grande Comissão ainda em nossa geração, reconhecendo que há mais de três mil línguas para serem traduzidas, mais de dois bilhões de pessoas que nunca ouviram falar de Cristo e barreiras imensas, mas temos os recursos e o poder.

No entanto, temos que saber que os recursos são liberados para a causa e não para usufruto nosso simplesmente. Conta uma anedota que um fazendeiro deixou sua fazenda a cargo do caseiro e lhe disse que qualquer coisa que ele precisasse era só pegar na cidade que já estava acertado com o comércio local que ele pagaria quando voltasse. Transcorridos seis meses, o fazendeiro voltou e, para sua surpresa, tudo parecia abandonado.

As vacas e cavalos correndo livres por toda parte, pois as cercas estavam todas estragadas. As galinhas fazendo da sua casa um galinheiro. Enfim, uma bagunça completa. Ele, mais do que depressa, foi à casa do caseiro e, para seu espanto ainda maior, vê que a casa, antes uma choupana arrumada, mas pequena, agora mais parecia uma mansão. A começar pela entrada com um portal de luxo e com um jardim fantástico, havia ainda carros importados, antena parabólica, piscina, quadra de tênis, campo de futebol e muita gente curtindo um grande churrasco.

Ele procurou o caseiro, cada vez mais nervoso, até que o achou no meio de todo aquele espetáculo de desperdício de seu dinheiro. Ele perguntou ao caseiro “o que é isto que você fez com meu dinheiro e por que você deixou minha fazenda abandonada enquanto a sua casa parece mais um palácio?” Ao que o caseiro respondeu: “bom, o senhor mesmo disse que o que eu precisasse poderia pegar no comércio local, e foi o que eu fiz. Há muito tempo queria ter todas essas coisas e aproveitei a oportunidade de sua bondade”.

Parece que muitas vezes nos comportamos de modo igual em relação às coisas que Deus nos dá, esquecendo-nos de que o que Ele nos dá é para usarmos no Seu Reino.

Vemos, em Gênesis 12:1-3, que através de Abraão todas as nações da terra seriam abençoadas, um princípio sendo esclarecido ‒ tudo que recebemos tem que ser para abençoarmos os outros também. Neste texto de Atos, vemos este princípio se cumprindo na vida de Estevão, mesmo nos últimos instantes de vida. Ele era um homem cheio do Espírito Santo e, ao receber e reconhecer a graça de um Deus todo santo e poderoso, clama para que esta também seja derramada sobre os seus inimigos. Tudo o que temos e somos deveria ser colocado à disposição do Reino, pois foi Ele que deu tudo de que precisamos no passado, nos dá ainda hoje e também nos dará no futuro.

Sabemos que todo joelho se prostrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, pois encontramos esta verdade no Antigo Testamento (Isaías) e no Novo Testamento (Apocalipse), mas sabemos que, como diz a música, “aquele que a Ti escolher um tesouro maior terá”. Encontramos esta verdade claramente na história, uma vez que verificamos com clareza que toda vez que pessoas se colocaram à disposição de Deus os efeitos foram tremendos, foram alcançados povos extremamente difíceis em situações muitas vezes terríveis e, ao final, o nome de Deus foi glorificado.

A Palavra de Deus nos diz que essas ações missionárias têm que ser realizadas em várias esferas de nossa realidade: nossa localidade (Jerusalém), nosso país (Judéia), grupos étnicos dentro de nosso contexto (Samaria) e outras culturas (até os confins da terra). Todas essas esferas têm que ser alcançadas ao mesmo tempo, com o mesmo vigor, resta entender que local foi preparado para cada um de nós.

Esforcemo-nos para que, ao chegarmos diante do trono de Deus, tenhamos algo a oferecer a Ele, os povos e pessoas que conquistamos, e com bastante alegria, tenhamos a oportunidade de compartilhar com homens como Carey o que Deus fez em nosso tempo, através de nossa vida, e não tenhamos motivos para nos envergonhar.

Ele é o mesmo Deus do passado, por isso podemos crer que de novo Ele agirá como na história está registrado e nos capacitará para realizar grandes feitos em nosso tempo para a glória de Seu nome. Amém!

By |2018-02-27T15:58:47+00:00Segunda-feira, Abril 18th, 2016|Artigos|0 Comments

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