Nem Todos Somos Um Sucesso

Nem Todos Somos Um Sucesso

por Leandro Tinoco

Aquele era meu primeiro ano de estudos em São Paulo e eu estava envolvido até alma naquela Comunidade na favela de Heliópolis. Entramos naquele barraco construído ou equilibrado em cima de uma tubulação de esgoto. Já tinha visitado muitos barracos, mas aquele ultrapassou os limites de tudo que eu já tinha visto até aquele momento. O fedor era de arrepiar a alma e arder os olhos, a tristeza e miséria já haviam se transformado em dormência, onde nada mais se sentia a não ser aquela vida que de vida não tinha nada.

Entramos, eu e minha colega de missão, e tentamos desviar a atenção de toda aquela feiura e fedantina para as pessoas que estavam à nossa frente. Não me lembro mais porque ou como chegamos ali, se foi numa de nossas caminhadas evangelísticas ou se estávamos visitando alguém que fora no domingo na reunião da igrejinha, como chamavam a congregação que trabalhávamos. O certo era que a satisfação daquelas pessoas era grande em nos receber em seu barraco, e eu não entendia exatamente o por quê.

O café nos dado fora feito com uma água que preferimos não saber a procedência. Logo que feitas as apresentações começamos a falar do evangelho que os podia salvar, não só a alma, mas também o corpo, dando dignidade e esperança. Mas éramos somente seminaristas sem dinheiro ou apoio de qualquer outra estrutura e não tínhamos como oferecer nada além de nossa atenção, oração e abraço. Me sentia como naquela história dos apóstolos onde fora dito que nem ouro nem prata eles possuíam, mas a cura que vem do encontro com o Mestre isso eles podiam dar.

No entanto, quase sempre eu não conseguia visualizar claramente o milagre acontecer. Eu tinha somente 19 anos. Algumas vezes era claro e perceptível a cura física ou a libertação do poder das trevas, mas nem sempre era tão nítido o que estava acontecendo. O certo era que quase sempre se percebia a alegria daquele povo dos barracos fetidos em nos receber e, de repente, a esperança surgia no olhar de todos, inclusive no meu. Entendo mais agora que o barraco se tornava a Casa do Pai, que é aberta a pessoas de todos os povos e de todos os tipos, e naquele momento aquelas pessoas passavam também a se sentir inclusos no povo dEle e, talvez pela primeira vez, se sentissem fazendo parte de algo que os tirava da feiura da vida que não deu certo.

Nem todos os barracos eram daquele jeito, alguns tinham inclusive um certo luxo e poderiam ser tidos como casa de gente bem de vida, de gente inclusa no lado rico da sociedade. Mas eu passei logo a perceber as semelhanças nos olhares vazios daqueles que tinham mais, com aqueles que tinham menos. Quando depois fui trabalhar numa Igreja de gente abastada não foi surpresa pra mim encontrar o mesmo vazio nas casas que visitei, mas também ficava sempre com a expectativa que a casa se tornasse o templo da presença de Deus, que eles também, talvez pela primeira vez, no meio da riqueza vazia, se sentissem inclusos no povo dEle.

Quando nos deparamos com a realidade, com as experiências, desafios e oportunidades que Deus nos dá, com a situação concreta da vida que é colocada diante de nossos olhos, com aquela construção de vida que é única e que, portanto, cada pessoa se diferencia da outra, precisamos chegar a conclusão de que não é saudável alimentar romantismos e ilusões, sob pena de nos tornarmos a cada ano ou a cada passo que damos mais amargurados, desfigurados e com a sensação de que fomos esquecidos num canto qualquer.

Nem todos somos ou seremos um sucesso. Nem todos seremos ricos, belos ou brilhantes. Nem todos receberemos atenção quando decidirmos falar ou fazer algo que entendemos ser certo ou bom. Nem todos receberemos um sonho lindo para viver. Nem todos seremos abordados pelo amor ou o perceberemos quando ele surgir.

Alguns de nós terão que abrir mão do sonho profissional ou mesmo do campo missionário por causa de seus pais doentes ou pelos seus filhos. Alguns terão a vida encurtada ou limitada por um acidente ou por uma doença incurável. Outros enfrentarão dramas internos e perigos externos que parecerão não ter fim. Ainda outros, quando alcançarem o que planejaram se descobrirão sem rumo e significados mais profundos na vida.

No entanto, não importa se rico ou pobre, todos nós podemos correr para os braços do Pai e sermos aceitos por Ele com um carinho e aceitação que a tudo re-constrói. Independente de quão relevante possamos parecer para os outros ou mesmo para nós mesmos, de quanto podemos ter tido sucesso segundo o parâmetro dado no dia a dia disputado das profissões, nas expectativas nervosas do mercado ou da não inclusão nele, independente de qualquer coisa boa ou ruim que aconteça com nossos planos, todos podemos transformar o barraco pequeno, fedido e caído num palácio onde a presença dEle preenche a tudo e a todos que se abrem para Ele. Ou olhando do outro lado do fracasso, todos podemos deixar de lado a casca dura do sucesso que não preenche a alma, da casa rica e farta, mas fria e sem vida, e voltar correndo para aquele que a tudo preenche de vida, para Jesus.

Hoje, vendo pessoas se equilibrando em meio a tanta pobreza e incerteza ou riqueza e vazio, lembro sempre de me esforçar por esclarecer que o sucesso ou a falta dele não determina nosso senso de satisfação ou significado. Nem todos somos um sucesso naquilo que fazemos, mas todos podemos correr para ter o abraço do Pai. Ou, dizendo de outra forma, o evangelho não é uma chamada a relevância, mas a relacionamento e obediência, mesmo porque a relevância que o mundo espera quase sempre não significa muito no Reino de Deus.

Vendo a forma como alguns têm explicado a busca por entender nosso chamado e vocação, como uma busca por se encontrar, por descobrir seu lugar no mundo, por descobrir qual atividade ou uso fará de seus dons, talentos, capacitações para conquista de algo relevante, tenho sempre o receio de que esta mensagem possa parecer por demais com a mensagem que o mundo a nossa volta sempre quer reforçar, de que quem tem sucesso e relevância é gente séria e que deve ser respeitada, mas quem não se encontrou é gente que não merece nossa atenção.

Nosso chamado e vocação é fundamentalmente imitar a Cristo e nos encontrar com Ele no nosso barraco ou palácio. Tudo o mais que possamos fazer deve ser resultado deste encontro com Ele, mas o fazer coisas não deveria ser nem nosso grande objetivo, nem a forma como avaliamos nossa espiritualidade. Nos encontrar tem haver primeiramente com estar com Ele.

E Ele gosta mesmo é de gente pequena e humilde, independente das aparências externas, e que se vê como necessitada de médico e de cura, e que o busca mesmo que se sinta tateando no escuro, pois sabem que Ele é sempre presentiador dos que o buscam…e o presente é sempre Ele mesmo!

By |2018-02-27T16:24:11+00:00Terça-feira, Maio 17th, 2016|Artigos|0 Comments

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